O que espero dos Jogos

Começou! Começou o final desta Jornada Olímpica, construída durante os últimos anos. Uma visão arrojada de lideranças políticas e esportivas, que veio ganhando concretude pouco a pouco na última década e que chega à sua prova final. Uma realização de uma cidade com o forte apoio federal, uma aposta política, econômica e esportiva que tem como objetivos desenvolvimento e integração nacional. Isto tudo entrou em campo e nas próximas duas semanas iremos assistir e participar desta história sendo escrita.

Primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul. O Rio está cheio, muitas ruas fechadas no Centro e Zona Sul, muitas pessoas a pé para o Maracanã, vivendo o evento e a cidade. Também uma quantidade enorme de soldados nas ruas. Especialmente no Centro. Por conta da abertura, na sexta-feira, era impactante o número de caminhões e tanques. Em nenhuma outra Olimpíada vi algo parecido. Mas não houve repressão, pelo menos até esta hora em que escrevo, a nenhuma das manifestações contra o governo interino e contra a Olimpíada que aconteceram em pelo menos três locais diferentes, reunindo milhares de pessoas. O Brasil é isso, cheio de contradições, uma obra em construção.

O que me leva à pergunta acima. Eu espero que esta jornada olímpica nos sirva para contemplar a competição esportiva, a expressão máxima de qualidade que temos no esporte mundial. Que possamos torcer pelos atletas brasileiros, nossas referências, os modelos de dedicação que nos inspiram e nos deixam orgulhosos. Que possamos conhecer as histórias por trás dos ídolos e buscar significados nas nossas próprias vidas. O esporte como um microcosmo da vida real, o campo esportivo como uma projeção das emoções e da ética do nosso cotidiano. Uma alma e uma qualidade que nos representam, nos espelham como povo ao mesmo tempo que nos mostram nossos potenciais e limitações.

Esta é a oportunidade que a Olimpíada do Rio nos coloca e que deveríamos aproveitar para aprofundar debates e ir além do entretenimento que a festa vai proporcionar. O Brasil já teve o seu 7x1, não precisamos desta dor para nos mobilizar a questionar “o que eu ganho com isso?”. Podemos aprender com a maturidade, com a participação crítica, para qual lado for. As pessoas hoje se posicionam mais, cobram mais transparência e eficiência, não acreditam em simples discursos, não se emocionam tão facilmente. Responsabilidade para as lideranças políticas, esportivas e outras, que têm o poder de representatividade, e da própria mídia, grande mídia ou alternativa, de fazer estas reflexões.

E isto é o legado, aquilo que ficará para além dos Jogos. No caso do esporte, a clareza que o esporte que transforma é aquele que está no dia a dia das pessoas. Beiramos os 80% de sedentários, são poucos os que têm educação física de qualidade, esporte na escola, os que fazem parte de um time amador, menos ainda os que são federados a alguma modalidade olímpica. Mesmo com várias iniciativas de cidades em colocar foco na ampliação de parques, ciclovias e outros espaços públicos para atividade motora, ainda são poucos pais que têm a cultura do lazer ativo com seus filhos.

Todos os benefícios motores, cognitivos e sócio-afetivos e seus impactos na formação pessoal e na saúde só são efetivos para quem pratica. Nenhuma medalha do nosso time olímpico terá impacto na vida dos brasileiros se aquele feito não tiver um paralelo na sua vida, se a pessoa não tiver acesso a este ambiente na escola, bairro, cidade, país. A Olimpíada é nossa, é real, está acontecendo. O desfecho ninguém sabe, graças à imprevisibilidade do esporte. Mas a luta pela conquista do esporte nosso de cada dia, esta ainda precisa ser feita numa escala para muito além da Rio-2016.

Espero ver muitas conquistas dos atletas brasileiros e também lideranças que assumam o protagonismo numa conquista ainda maior: uma Nação Esportiva.

Publicado em:06/08/2016
Autor:Ana Moser

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